A Filosofia Existencialista de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir marcou profundamente o século XX no ocidente, e o mundo não foi mais o mesmo depois deles. Nascida na França, na 1ª metade do século XX, a filosofia existencialista de Sartre e Beauvoir teve por base diversas contribuições como as da Fenomenologia de Husserl na Alemanha e seu impacto para a psicologia nascente de Wundt em Leipzig, do Existencialismo dinamarquês de Kierkegaard do século anterior e do existencialismo de Heidegger na Alemanha do início do século XX, de Nietzsche, Hegel, Marx, Freud, entre tantos outros… e se tornou uma força expressiva no contexto tumultuado da 2ª Grande Guerra.
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Ocupou espaços da vida e da cena cotidiana, transcendendo a elite pensante que a originou, ganhando as ruas, representando as grandes pautas da época e dando voz aos anseios de diversos grupos que questionavam o status quo. Abriu caminhos para a contestação de teses já naturalizadas, sendo um dos fundamentos teóricos que tornou possível a Reforma Psiquiátrica na Europa e no Brasil. Beauvoir em sua obra O segundo Sexo, publicado pela 1a vez em 1949 (vol. I e II) foi ícone do movimento feminista de primeira onda, derrubando as certezas que determinavam a mulher e o feminino a um lugar inferior e menorizado pautado em bases pretensamente biológicas ou teológicas, questionando determinismos de quaisquer espécie.
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Coerente com princípios teóricos que a qualificam enquanto uma filosofia da ação, da liberdade e do engajamento, foi incompreendida por seus críticos tanto católicos e moralistas quanto marxistas. A filosofia de Sartre e Beauvoir manteve-se firme em seu propósito, tão logo a mensagem de esperança se espalhou naqueles tempos tão sombrios em que a humanidade enveredava perigosamente pelo risco da sua própria extinção. Difundiu-se por meio da literatura, artes e filosofia, consolidando-se como uma possibilidade concreta de compreensão da humanidade, e de uma saída também, ao assumir a moral da liberdade. Reside aí sua atualidade: ao definir o ser humano enquanto liberdade, o pensamento existencialista recoloca o futuro da humanidade em nossas mãos; seremos o que decidirmos fazer de nós mesmos sempre em meio à facticidade.
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Ao compreender o sujeito humano como um ser que se escolhe na relação com o mundo e os outros, a Psicologia de base sartriana se desenvolve a partir da descrição fenomenológica desta relação, procurando esclarece-la em seus aspectos existenciais profundos, evidenciando a vivência do paciente frente a este mundo e a estrutura intencional da consciência que o liga de forma umbilical a tudo que não é a consciência. É nas relações que encontramos o sujeito concreto em meio aos outros e as coisas; temos acesso direto à subjetividade no momento mesmo em que existe seu ser numa dada materialidade e num tempo histórico dado; em compreensão de si consigo mesma, com o seu ser-para-outro, seu corpo e suas possibilidades.
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Exatamente por nos constituirmos nas relações a partir das experiências concretas de nossa existência no meio do mundo, e não a partir de uma essência natural, divina ou coisa que o valha, sempre escolhemos em situação, nos elegendo contra a facticidade que define nossas circunstâncias, projetando-nos para o futuro, deixando pra trás um rastro pelo qual somos totalmente responsáveis. Desse modo somos e não somos nosso passado pois sempre podemos nos reeleger diferentemente do que escolhemos até então, retirando toda e qualquer determinação que não seja relativa à liberdade enquanto necessidade de escolher-se. Nesse sentido somos um ser que não é nada senão aquilo que faz de si mesmo num movimento constante de totalização histórica, sendo responsável pela história ao mesmo tempo que definido por ela.
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À luz dos fundamentos de Sartre e Beauvoir, a psicoterapia existencialista busca compreender o que está ocorrendo em termos existenciais e psicológicos com o paciente, bem como as condições concretas que levaram esse sujeito ao sofrimento. A partir dessa compreensão, traça um plano de trabalho que consiste num conjunto de iniciativas que englobam o acolhimento, descrições fenomenológicas das vivências, a cada sessão mais aprofundadas, elabora compreensões terapêuticas e realiza localizações sistemáticas, tanto psicológicas quanto existenciais e políticas. Com um olhar interdisciplinar – neurologia, endocrinologia, pedagogia, nutrição, direito, economia, etc. e num esforço conjunto entre paciente, psicoterapeuta e, muitas vezes, a família. do paciente, a psicoterapia existencialista poderá trabalhar auxiliando essa pessoa a se conduzir rumo à superação de seu sofrimento, por um processo de destotalizações e retotalizações sistemáticas. Resgatando-se a si mesma, o que seria o mesmo que dizer, seu projeto e desejo-de-ser, sempre em meio a uma dada materialidade que também constitui seu campo de possíveis, busca-se condições para que, em parceria com a pessoa que procura um processo psicoterapêutico se experimente, muitas vezes pela primeira vez, capaz de eleger-se criticamente no contexto de suas relações e mediações materiais e sociológicas.
Por Marisa de S.Thiago Rosa

